A imagem clássica da Psicanálise frequentemente remete a um consultório silencioso, ao divã e aos tratamentos mais prolongados. Mas, e quando o cenário se transforma radicalmente? O que pode um psicanalista diante de um sujeito invadido pelo Real em uma maca de emergência? A prática psicanalítica em hospitais gerais exige que se atenda junto ao leito, em meio ao som das máquinas, às interrupções implacáveis dos profissionais de saúde e a pressa dos médicos para salvar vidas. Sustentar a clínica psicanalítica em hospitais é entender que o inconsciente e a transferência se mantém firme, só que, nesse contexto, indissociavelmente atreladas ao insuportável de um corpo doente e à urgência da finitude.

Os desafios da Psicanálise no hospital

No consultório particular, o sujeito desfruta de uma previsibilidade, diferente dos imprevistos diários que acontecem quando se está internado. Os desafios da Psicanálise no hospital se materializam em encontros, muitas vezes, mais curtos e na subversão do tempo. A intervenção pode ter de ocorrer em 10 ou 20 minutos, quando o paciente está com dor ou, por exemplo, precisa ser levado para um exame. A continuidade do tratamento não depende apenas do desejo do analisando, mas esbarra nas rotinas implacáveis da Instituição. Mesmo assim, eu escolho não recuar da minha práxis: a escuta psicanalítica aos pacientes hospitalizados busca acolher os silêncios densos e o sofrimento, sem dizer que “vai passar” e nem prometer a cura. 

Amarrando o Trauma: Psicanálise e sofrimento psíquico 

O horizonte ético da Psicanálise não inclui enquadrar o paciente na moral do Bem Supremo. Enquanto a Medicina indica a prescrição que o paciente deve seguir para ficar “bem” e opera no corpo físico através de cirurgias e intervenções, o psicanalista se dirige ao sujeito do inconsciente, sem um saber prévio que ele deva cumprir. O objetivo da Psicanálise diante do sofrimento psíquico do sujeito hospitalizado é abrir espaço para que possam vir à tona o horror diante do indizível da morte, do insuportável processo de luto, da perda da privacidade e da autonomia, do afastamento da família. Pelo fio da palavra, o paciente poderá contornar a angústia — aquele afeto que o invade como um sinal de alarme de que o Real está ali, próximo demais. A prática do psicanalista pode promover ao paciente alguma elaboração, que possa reduzir a “violência” imposta pelas máquinas, procedimentos, agulhas e bisturis.

A função analítica no contexto hospitalar e o Manejo da Transferência

Diante do desamparo, o paciente pode endereçar ao analista o desejo de que ele seja aquele que “salva”, buscando um poder e um saber do qual o analista precisa abrir mão, se omitindo de trazer respostas prontas para o sofrimento. Ao recusar a posição de domínio que tampona a falta, e ao dar espaço para o sujeito falar, me deparo constantemente com afetos arrebatadores: o desespero de um paciente diante da finitude, da impotência, da falta de garantias. Sustentar a função analítica no contexto hospitalar requer, portanto, extrema atenção aos movimentos transferenciais, acompanhada indispensavelmente por constante estudo teórico, supervisão e análise pessoal.

A Palavra Frente ao Absoluto Desamparo: Quem se beneficia?

Na minha prática diária, acompanho pacientes com doenças graves, algumas incuráveis. São pessoas com insuficiências cardíaca, renal, pulmonar etc, o que faz com que eles estejam intensamente angustiados. Certa vez, um deles, em fase terminal, disse estar passando a guarda dos filhos para uma tia, e lamentou: “o trem está parando…”, fazendo uma referência à morte. Seja nas enfermarias ou ao conduzir um complexo atendimento psicanalítico nas UTIs hospitalares, escuto as vozes daqueles que enfrentam a negação da doença, a revolta pela internação, a barganha com a vida, o questionamento da religião, as indagações à Deus, a delegação de procedimentos burocráticos à familiares, a reclusão, a desistência, a culpa avassaladora por terem adoecido, chegando até mesmo ao desejo de “deixar-se morrer”, para “acabar logo com o sofrimento e a dor”. Diante desse cenário trágico, o trabalho do psicanalista beneficia imensamente os pacientes – inclusive os que estão em cuidados paliativos – as famílias imersas no terror da antecipação da perda e auxilia os sujeitos a, mesmo no caos, resgatarem os seus desejos.

O Corpo Atravessado pelo Real e o Nosso Convite

Em última instância, o meu trabalho reside em provocar um encontro ético: aquele entre o corpo estilhaçado pela doença e a palavra que faz borda a esse Real. Onde a dor, o isolamento e a proximidade da morte imperam, a Psicanálise garante que o sujeito exista, para além do adoecimento. Quando um paciente, em meio ao desespero, me pede “me ajuda, Daniela!”, quando o coloco em cena e o faço falar, há um impacto imenso nisso, há uma elaboração que leva a uma mudança subjetiva, que poderá ser verificada no “só depois” das sessões.

Se você, colega psicanalista ou psicólogo, assim como eu, escolhe não recuar perante a invasão do Real, convido-o a se aprofundar nessa práxis vital com a leitura do meu livro: O impacto do real em um hospital”, repleto de recortes clínicos do meu cotidiano no ambiente hospitalar, articulados com as teorias de Freud e Lacan. 

Para solidificar ainda mais a sua escuta sem abrir mão do rigor necessário, me siga no Instagram, onde você encontrará dicas sobre atuação, manejo e ética no ambiente hospitalar. 

Vamos sustentar juntos o desejo de fazer a diferença nas vidas desses pacientes que, muitas vezes, estão passando pelos momentos mais difíceis e inimagináveis de toda a existência!

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Sou Daniela,

Mestre em Psicanálise, com mais de 25 anos de atuação em instituições de saúde do RJ. Meu foco é garantir a escuta do sujeito no ambiente hospitalar. Com meu blog, espero inspirar e auxiliar outros psicanalistas a sustentarem essa prática clínica nos hospitais.

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