A imagem mais conhecida da práxis de um psicanalista costuma remeter ao silêncio de um consultório neutro, com o divã e a “regra” de uma sessão de 50 minutos. Mas, o que pode um psicanalista quando esse cenário é radicalmente subvertido pelo adoecimento e pela urgência? Sustentar a prática psicanalítica em hospitais gerais exige a clareza de que o cenário se transforma, mas a ética do desejo e a essência do nosso ato permanecem irredutíveis: a atenção inabalável à palavra, aos silêncios, ao corpo invadido pelo Real e aos laços transferenciais. Neste espaço, mostrarei como nossa clínica pode estar presente no cotidiano das enfermarias, provando que é possível fazer o sujeito advir onde a tirania imposta pelo tempo cronológico pode silenciá-lo.
“Me ajuda, Daniela!”. Quando o desamparo ecoa nas enfermarias e CTIs, a equipe de saúde costuma acionar rapidamente os profissionais da Saúde Mental. Quando o Real da doença invade o corpo e o sujeito se depara com a castração e a finitude, o que pode um psicanalista no hospital?
Apoiada nos ensinamentos de Freud e Lacan, a Psicanálise parte da premissa de que o sujeito está atravessado pelo inconsciente e pela transferência. Frente ao horror do adoecimento, o psicanalista analisa a maneira como a internação atravessa a vida de cada sujeito singular. O psicanalista não fixa um plano de ação para as sessões; é a história trazida por cada paciente que guiará a direção do trabalho. O paciente, em puro desamparo, pode necessitar de uma escuta específica, onde só o analista, esvaziado de um saber absoluto, poderá acolher o não-senso do adoecer e do morrer.
O tempo do sujeito e as limitações da Psicanálise em ambiente hospitalar
O que permanece intocado na nossa clínica é a posição do analista: renuncio a dar respostas e a encarnar um saber, para me colocar como causa de desejo, sustentando a escuta do paciente. O que muda é somente o cenário: em vez de poltronas confortáveis, a sessão pode ocorrer ao lado de um leito de CTI, em salas de espera ou em enfermarias compartilhadas. As entrevistas, muitas vezes, são interrompidas por outros profissionais de saúde, por exemplo, devido aos horários de medicações, aos exames e procedimentos. Além disso, a continuidade dos atendimentos torna-se frágil frente à morte iminente, as altas ou transferências hospitalares. Apesar das limitações da Psicanálise em ambiente hospitalar, essas barreiras não impedem a escuta; apenas exigem que a intervenção incida cirurgicamente na urgência subjetiva, introduzindo um tempo de pausa (o tempo de compreender) no meio do caos.
O furo no Real: como um psicanalista hospitalar escuta o paciente?
A forma como um psicanalista hospitalar escuta o paciente difere radicalmente do inquérito médico: eu não abordo um sujeito procurando respostas objetivas para fechar um diagnóstico. O que me interessa é a fala do paciente, onde geralmente vem à tona: a angústia, o horror (mesmo quando aparece no silêncio), a culpa, as fantasias criadas para tentar alguma proteção diante do insuportável. Muitas vezes, o sujeito nega a doença ou busca no analista uma salvação mágica. Nesses casos, a intervenção do analista poderá fazer o sujeito se implicar em seu tratamento, aderindo aos cuidados prestados pela equipe de saúde.
O um a um na clínica psicanalítica
Nos atendimentos individuais ou em grupos — seja com pacientes, familiares ou cuidadores —, o analista escuta a história de cada sujeito, e observa as manifestações da angústia. Os grupos de familiares, por exemplo, transbordam sentimentos de impotência e desamparo que precisam ser simbolicamente organizados, reduzindo o terror do isolamento e desvendando fantasias que a instituição mobiliza.
A ética da Psicanálise e a equipe multidisciplinar hospitalar
No hospital, a práxis do psicanalista exige limites e demarcações éticas. Ao sustentar a “douta ignorância”, o analista não se coloca como o sábio diante do paciente. Ele não define o que deve ser feito, não prescreve condutas ou remédios, não assina altas, não substitui a Psiquiatria perante crises agudas. Mas ele permite ao paciente a construção de um saber singular. Cabe destacar ainda que, no hospital, mantemos o rigor do sigilo profissional, embora tal sigilo precise ser dialetizado. Por exemplo, se escuto uma ideação suicida, comunico o estritamente necessário à equipe para a preservação da vida, sem jamais revelar os detalhes íntimos do que foi expressado pelo paciente. A inserção da Psicanálise na equipe multidisciplinar hospitalar é vital: o psicanalista participa das discussões de casos com os demais profissionais de saúde, e traz para primeiro plano a singularidade do sujeito do inconsciente, contribuindo, assim, para um cuidado integral.
Construção de recursos para suportar o insuportável (Supervisão Clínica)
Sustentar o discurso do analista no hospital, diante da urgência do paciente e, muitas vezes, da invasão avassaladora da morte é um desafio complexo e, não raro, solitário. Para não sucumbirmos à angústia e não cedermos à certas demandas equivocadas da Instituição, a teoria precisa estar viva e amparada pela prática. Você não precisa enfrentar os impasses da transferência e os recortes traumáticos da clínica sozinho. Se você é psicanalista, psicólogo ou profissional da saúde e escolheu não recuar da sua práxis diante do desamparo humano, a supervisão clínica é o seu contorno simbólico fundamental. Clique aqui e agende o seu horário de supervisão agora. Juntos, vamos analisar os seus casos com rigor ético, amparados pelo ensino de Freud e de Lacan, construindo as ferramentas exatas para que você possa manejar o tempo do sujeito, suportar o insuportável e garantir que a palavra advenha onde, tantas vezes, tentam silenciá-la.


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